A Percepção nasce da Intimidade

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Certa vez um cego de nascença que queria ver foi levado até um mestre local chamado Jesus, reconhecido como um homem sábio e com poderes considerados elevados.

O mestre misturou seu cuspe com o barro, colocou nos olhos do cego, limpou, e lhe perguntou: “O que você vê?” O homem respondeu: “Vejo árvores que andam”. Repetiu o procedimento, e perguntou novamente: “E agora, o que você vê?” E ele via claramente, de perto e ao longe.

Havia nessa história uma situação de sofrimento  longo. Do sofrimento criou-se uma intimidade – nada mais íntimo do que o cuspe. Da intimidade nasceu uma maior e melhor percepção de si, do outro e do mundo.

Penso que essa história metafórica joga luz e serve para você entender duas questões: De que se trata uma psicoterapia ou análise? O que você busca ao procurar um espaço para tratar de questões emocionais ou um psicólogo?

A cura do sofrimento é resposta mais imediata. Mas o caminho para esse objetivo passa pela criação de uma intimidade que foge aos padrões de um relacionamento cotidiano, de distanciamento.

A psicoterapia é um relacionamento humano, em que através de uma conversa você vai informando ao profissional, de forma a mais verdadeira possível o que você vê, pensa, sente e interpreta o mundo.

Essa possibilidade de dizer as coisas que normalmente você não tem coragem de dizer cria uma intimidade.

Quando um paciente chega a primeira vez diante de mim, faço um pacto com ele. Sem esse pacto não há análise. Esse pacto é simples.

Primeiro, o paciente se disporá a falar livremente tudo o que lhe vier a mente. Não há certo e nem errado. Ali tudo é permitido falar. E, segundo, para garantir a liberdade de dizer tudo, pactuamos que o que for dito permanecerá como um segredo entre nós. Fazemos um pacto mutuo de sigilo.

Ali a verdade pode ser dita sem medo. Sem medo de ser discriminado, agredido, desprezado ou humilhado, e sem precisar se esconder… Simplesmente dizer.

E aí acontece algo que, ao acontecer, inevitavelmente nos deixa perplexos… começamos a ver aquilo que não percebíamos, a enxergar as coisas simples sob nova luz… a vida, suas ações e reações, as pessoas, os próprios medos, seus sonhos, e até aquela sua tristeza de estimação.

Do ponto de vista técnico, é tornar conhecido o desconhecido, a tornar consciente o inconsciente.

Mas a tecnica é apenas uma forma de condensar uma jornada cheia emoções as mais variadas, de paisagens mal vistas e percepções mais humanizadas.

À medida que o tempo passa, a verdade sobre si mesmo  e sobre o mundo vai ganhando forma, contornos, luzes, sombras, som, sabores e até aromas.

Mas você pode permanecer como está, com o seu sofrimento sem sentido, sem claridade, sem sabor ou amargo.

O custo disso é o aumento da sua dependência do outro e a diminuição da sua própria autonomia. Em outras palavras, a perda da sua liberdade.

Isso até que você se disponha a estar diante de alguém que verdadeiramente esteja interessado em lhe ouvir, e intimamente lhe pergunte: “O que você vê?

Carlos Augusto Rodrigues de Souza

Psicólogo –  Mestre em Psicologia Clínica

19 99144-4084 (whatsApp)

Meu Nome é Omran

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– Olha essa imagem!

Fui buscar um pouco de socorro com os de casa.

– É um boneco do Chuck?

Essa resposta me dilacerou.

– Não.

Respondi entristecido.

– Quem é o Chuck?

Insisti na busca por socorro…

– Um filme de terror, de um boneco assassino.

Onram… Um olhar perdido no infinito do nada. É uma criança de 5 anos… em estado de choque, petrificada pelo medo, pela dor e pelo sofrimento de um bombardeio em sua cidade Aleppo, que acabara de sofrer.

Quando o sofrimento transborda para além do suportável para o ser humano ele pode petrificar, plastificar e desumanizar.

Omran é um sobrevivente da guerra na Síria. Até quando? Há pouco li que Onram perdeu seu irmão de 10 anos que não resistiu aos ferimentos do bombardeio. Mais um choque? Não sei…

Fico olhando para Onram… fico imaginando quanta vida havia nesta criança. Quantos sorrisos, quanta vivacidade. Mas sua cidade está destruída, e seu país, e sua escola, e sua casa, e seu irmão.

Onram contrasta com a cadeira limpa, higienizada e colorida da enfermaria que o acolheu. Só uma coisa os similariza: a imobilidade, a coisificação. Junto da cadeira Onram é uma mobília que incomoda, um boneco sujo, um horror.

Continuo olhando para ele, e vejo para além de sua imobilidade, um menino lindo. Nem o sangue em sua face ferida, um de seus olhos inchado e quase fechado, sua roupa suja e empoeirada, ou o ferimento em sua perna, ofuscam a sua beleza.

Não, definitivamente Onram é uma linda criança vivendo o terror de uma guerra, em que adultos plastificados e insensíveis ao seu sofrimento, tornaram-se bonecos assassinos, transformando crianças em coisas.   

Sim, o resgate de Omran é o resgaste de nossa própria humanidade. 

 

Carlos Augusto Rodrigues de Souza

Psicólogo Clínico, Psicoterapeuta

Mestre em Psicologia Clínica – PUC-SP

2016: O Ano de Suas Conquistas

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O que você planejou fazer em 2015, não conseguiu, e quer conquistar em 2016?

Pesquisa noticiada no programa Manhattan Connection na Globo News em 27/12/2015, relata o que a maioria dos americanos deseja para o ano 2016.

Se você pensou parar de fumar, emagrecer (fazer exercício) e fazer uma poupança, acertou.

Ano após ano as pessoas renovam estes mesmos desejos. Porque é tão difícil alcança-los? Porque para alcança-los você tem de lidar com seus desejos imediatos: fumar, comer e gastar.

E quem está afim de abrir mão de satisfazer seu desejo imediato para ter uma promessa no futuro?

E quais são estas promessas?

Poupar dinheiro: para realizar seus sonhos, para ajudar as pessoas, adquirir um bem, fazer uma viagem, sentir-se livre dos devedores, ter segurança nas emergências, ter liberdade para tomar decisões, enriquecer, ter controle de si.

Emagrecer: sentir-se mais bonita, ter uma saúde melhor, mais qualidade de vida, dormir melhor, sentir-se aceito socialmente, aumento da autoestima, ter mais disposição.

Parar de fumar: ser livre da ansiedade, ficar com a pele mais bonita, ser aceito socialmente, ter disposição física, ter saúde, sentir-se livre.

Alcançar estes alvos é contra cultural. Nossa cultura privilegia a satisfação dos prazeres imediatos, sem se preocupar com o futuro. Estamos falando em adiar o desejo, maneja-lo para… ser livre, ser mais bonit@, ser mais ric@, ou simplesmente ter paz.

No caso da poupança, o economista Shumpeter, viu nó crédito, um dos motores do capitalismo. Mas é justamente o crédito fácil, através dos cartões de crédito, que dificulta a tão sonhada poupança (ou ficar livre das dívidas). A pessoa antecipa a satisfação do seu desejo através do consumo, o credito fácil, compromete o seu salário futuro, inviabilizando a sua saúde financeira.

Mas será que é a questão é só satisfação de desejo? De fato, penso que não. À medida em que a pessoa perde a liberdade de escolha já não estamos mais no campo do desejo, mas da necessidade.  O que temos aí é uma necessidade. No desejo há uma escolha. Na necessidade não há opção, há uma obrigação. Obrigação de fumar, obrigação de ingerir, obrigação de gastar ou comprar. A coisa é um pouco mais embaixo.

Quando falamos de necessidade, obrigação, já estamos no campo das dependências, da doença, ou caminhando em sua direção. E isso exige cuidado, as vezes, ajuda profissional…

Não alcançar estes alvos dá à você a sensação de endividamento.  Endividamento com o corpo, com a mente e com sua saúde financeira, ou seja consigo mesmo.

Você percebe tudo isto, mesmo assim não consegue fazer diferente, por causa do prazer que o comportamento lhe trás. Esse aspecto contraditório em psiquiatria tem no nome de patologia da vontade. Mesmo sabendo que faz mal, você não consegue evitar o comportamento “prazeroso”.

Qual é a saída para esta situação?

1) Pare de se culpar pelo passado.

O que foi feito não vai ser mudado se você ficar se culpando, exaurindo suas forças com seu remorso ou culpa. Não chore pelo leite derramado.

2) Pare de se preocupar demasiadamente com o futuro.

Esta preocupação do futuro é ansiedade. E ansiedade é o mesmo que corpo sem cabeça. A cabeça está pensando lá na frente, e o corpo no presente em estado de orfandade. Você vai precisar da cabeça e do corpo unidos para planejar e realizar ações de enfrentamento dessa situação.

3) Aja Agora

Decida fazer algo por você hoje. O hoje é o que você tem. É o que dá para fazer. Decida enfrentar estas tarefas a partir de agora, Não deixe para amanhã. O ano passado você deixou para amanhã, o ano passou, e vem aí um novo ano. Então, aja agora.

4) Tenha ajuda Profissional 

Segundo pesquisa pelo IBOPE em 2012, 69% dos brasileiros acima de 16 anos de idade não poupam. Ou seja, apenas 29% poupam, e muitos desses contam com ajuda profissional. 70% das pessoas que fumam quiseram parar de fumar no último mês, mas não conseguiram. Aliás, 3 de cada 100 pessoas conseguem sozinhos, segundo o INCA (Instituo Nacional do Câncer)

Isso mostra que a decisão de agir é importante, mas é preciso sustentar a decisão, e a ajuda profissional pode ser um importante fator de sucesso nesta sustentação, para você finalmente alcançar os seus alvos.

Então, bom 2016 para você, e que este seja o Ano da Virada, o Ano das Conquistas,  o Ano de Muitas Realizações.

Grande abraço,

Carlos

Psicólogo/Psicoterapeuta

Mestre em Psicologia Clínica

Fone (19) 3241-3281 ou (19) 99144-4065

 

Fazer Psicoterapia

 

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“Abrir o coração” à outra pessoa, falar do sofrimento e dos sonhos para alguém confiável é saudável, é um presente para a humanidade, recomendado inclusive nas Escrituras, esse tesouro de palavras reunidas, que associa a fala da dor à cura.

A psicanalista francesa Françoise Dolto em Os Evangelhos à Luz da Psicanálise diz que o papel da análise, ou psicoterapia, é possibilitar perdão, ou seja, a pessoa poder se perdoar. Falar a alguém do próprio sofrimento, é como bálsamo refrescante sobre uma ferida aberta. Devidamente cuidada, vai se fechando, fechando… e cicatriza.

Para isso tem que haver a interlocução de alguém idôneo. Suponho que muitos vezes jogamos “pérolas aos porcos”. Ou seja, falamos para pessoas que, mesmo sendo boas e tendo ótimas intenções, não estão preparadas, humana e tecnicamente, e por isso não sabem valorizar nossos sentimentos, e pouco compreendem nossa história. Encontrar alguém idôneo para ouvir é um achado. E isso é possível.

Ao falarmos para uma pessoa idônea sobre o que acontece conosco, novos mundos e possibilidades vão se desenhando para nós. De repente, dizemos coisas que existiam em nosso interior sem nosso conhecimento. É como se disséssemos para dentro de nós mesmos: “Haja luz”. É sempre uma surpresa!

“Abrir o coração”  é retirar de nós entulhos de sofrimentos, cacos de vidas, restos que resistem, e que nos impedem de sermos quem somos ou podemos ser. Mas também é encontrar palavras e sentimentos esquecidos, que vão gerar novas e leves maneiras de viver. Isso não é para qualquer um. É preciso ter coragem. E coragem a gente conquista.

A doença do desenraizamento

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Em Fevereiro de 2015 reiniciamos os atendimentos em psicoterapia de base analítica aos pacientes em nossa Clínica de Psicologia Espaço Kairós.

Nosso ofício é acompanhar e ajudar pessoas (jovens e adultos) com sofrimento na mente, no ser, na alma. Sofrimentos que geralmente aparecem com roupagens pouco convencionais, e que necessitam de um manejo e atenção complexos. Para isso precisam ser reconhecidos por nós, profissionais.

Um exemplo disso é o que Simone Weil chama de a doença do desenraizamento. Modalidade de sofrimento que encontramos em nossa clínica. São pessoas que se sentem sem raizes, soltas na vida, sendo jogadas de um canto a outro e sem destino. É o sofrimento daqueles que se sentem sem lugar no mundo. A questão é que elas não se sentem enraizadas no coração de outra pessoa, de uma pessoa que lhe seja significativa.

Esta modalidade de sofrimento, gera duas consequências terríveis para a pessoa que sofre, e para aqueles que convivem com ela no trabalho, na família ou em outros espaços: a violência, que gera mais desenraizamento, e a inércia da alma. Alma no hebraico é vento, e vento se movimenta. Uma alma inerte, não se movimenta, está paralisada em seu ser, pesada. Assim são as pessoas que vivem esse estado de ser.

Aparentemente diferentes, a violência e a inércia da alma, são expressões de uma vida que se definha e pede socorro. A questão é se esse pedido de socorro pode ser ouvido pela própria pessoa (o que a levará a procurar ajuda), e pelos que estão à sua volta (em propor, indicar e buscar a ajuda adequada).

Nessa compreensão, somos como árvores plantadas que crescem, tem o seu ritmo próprio, o seu tempo de florescer e dar frutos. Árvores abrigam os pássaros e fornecem-lhes o alimento necessário, lhes permitindo cantar sua alegria. Sua beleza e saúde alegra nossos corações. Sua interação é viva, o vento toca suas folhas, ela responde com suavidade e intensidade. Ela está integrada ao movimento da vida com toda sua singularidade.

Essa metáfora vegetal sobre natureza humana, proposta por Simone Weil, é sensível a um aspecto bem peculiar do desenraizamento que vivemos atualmente em nosso mundo moderno, que é a forma como tratamos a natureza, as árvores, os rios, as nascentes, enfim, o meio ambiente. Ela resgata uma interação e compreensão que estão sendo perdidas, e em muitos aspectos tem se voltado contra nós mesmos.

 

Carlos Augusto Rodrigues de Souza

Psicólogo – Mestre em Psicologia Clínica

Fone: (19) 3241-3281

Seu sofrimento é único

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A resistência em tratar um sofrimento psíquico (mental) é natural. Num primeiro momento, hesitamos. Depois, assumimos que precisamos de ajuda, e o procuramos. Mas, há aqueles que ignoram, escondem, guardam e carregam o sofrimento dentro de si. Até que num determinado momento este sofrimento se impõe e transborda. E quando o sofrimento transborda não tem mais jeito. A necessidade de ajuda é urgente.

Ajuda urgente significa que a pessoa não consegue mais trabalhar, sente-se estagnada, o relacionamento afetivo fica insuportável, e a pessoa não aguenta mais a si mesma. Sua mente trava, e seu corpo grita através de várias dores. São sintomas das mais variadas ordens. Estes sintomas são formas de ordenar, de organizar o próprio sofrimento.

Não poucas vezes fui indagado se já tratei de pessoas com determinado sintoma. A resposta é sim e não. Sim já tratei de pessoas deprimidas, ansiosas, com problemas psicossomáticos e problemas em seus relacionamentos, pânico, e por aí vai. Mas estas formas de organização do sofrimento são apenas a ponta do iceberg.

Cada pessoa é única, e sua história singular. Logo, seu sofrimento também será único e singular. Mesmo que seus sintomas sejam semelhantes a uma organização depressiva, por exemplo, sua depressão será única no mundo. Não existirá nenhuma semelhante à sua.

Por isso, mesmo com todo conhecimento e experiência profissional, diante de um paciente novo…  sei que aquela experiência será diferente, que terei diante de mim uma pessoa que porta uma verdade sobre si e sobre o mundo únicas, que só ela tem. Seu percurso psicoterápico, portanto, será único, singular, e novo.

O sofrimento tem uma organização que comunica algo sobre a vida da pessoa. Mais ainda, ele mostra o quanto esta pessoa é potente. Mas esta potência, que neste momento, gravita em torno do sofrimento, faz falta em outras áreas de sua vida.

É isso que dá a ela a sensação de falta de energia e de vazio. A pessoa desloca uma força significativa para conter o próprio sofrimento. À medida que a pessoa vai sendo cuidada, sua força vai sendo liberada, para ser usada de forma criativa, em prol de si mesma, do próximo, e de seus projetos de vida.

Para não dizer que não falei……..

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Eu prefiro não falar desse tema. Dele só se fala baixinho, quase sussurrando. Ninguém gosta de falar dele. É vergonhoso. Imagina se descobrem que alguém da família foi acometido de tamanho mal. O que vão dizer de mim?

O sociólogo Émile Durkheim fez disso o tema de sua pesquisa sociológica. Diz ele que isto acontece sempre que há um estado de anomia na sociedade. Anomia significa ausência de lei, quebra da lei. Ou poderíamos dizer, de uma quebra da lei dentro de si mesmo, psíquica.

Talvez seja por isso. É algo que vai contra a lei. Até boletim de ocorrência tem que fazer. Então é difícil até falar. É como se estivéssemos cometendo um pecado pessoal, social e até espiritual. Quando alguém vive esse drama fora da lei os jornais não noticiam. E se noticiam, dizem que a pessoa foi encontrada. De ativa passa a ser passiva.

Sei que estou enrolando para dizer…. Mas não quero falar. Desse tema só se fala dando voltas, abstraindo, quase dizendo sem dizer, por inferências ou metáforas fora da ordem. Imagino que você sabe do que estou falando, se é que já não desistiu de continuar a leitura.

A questão é que para se chegar onde se chegou a pessoa deu várias voltas e mostras, recados, pedidos de socorro, e não foi ouvida ou entendida. Ou não se sentiu ouvida e entendida apesar dos esforços de quem estava ao lado. Até que chegou num momento sem volta. Então, aconteceu. O que fazer? O que levou a tal ato impensado?

É assim… ela quase disse, deu todas as amostras. Muitas mandam cartas, escolhem os caminhos da execução, preparam o cenário e avisam. Mas quem está ao lado não acredita. Diz de si para si e para outras pessoas, “quem quer mesmo não fala, vai e faz.” Mas não é bem assim.

Se recebo alguém e percebo que sua depressão é avassaladora, pergunto sem rodeios: “Você tem pensamentos de fazer algo contra si? Você pensa em se matar? Você tem planos? O que você pensou? Isto não é indução. O melhor é a pessoa falar para eu poder ajudá-la. Só o fato de falar com alguém, de confiar em alguém já é o início da ajuda à pessoa.

Se alguém chega e diz que vai fazer algo contra si, que já sabe como, e já tem os meios para colocá-lo em pratica, não tenha dúvidas ela vai fazer, aja! Com isso não se brinca. Eu ajo imediatamente. Não quero ter surpresas.

Faço alianças com esta pessoa…Chamo a família e a oriento, e quando não há família chamo os amigos significativos, enfim quem naquele momento pode dar suporte efetivo. Também, encaminho ou levo ao médico ou ao pronto socorro, se não há alguém disponível para isso. Enfim, ajo. A vida é um bem a ser cuidado.

Ah, ia esquecendo de dizer, depois que uma pessoa comete algo contra si, a possibilidade de vir cometer outro ato é altíssima segundo a literatura científica. Então toda ajuda é bem-vinda: as agências de sentido, como as igrejas e instituições de pertencimento, o remédio dado com orientação medica, a psicoterapia, o apoio de amigos e familiares….  Enfim, tudo o que for possível para disponibilizar cuidado efetivo.

É assim a pessoa antes do ato suicida: uma vontade imensa de falar sem se permitir dizer. Uma vontade imensa de gritar sem poder se ouvir, sem se poder dizer, pois lhe falta voz, lhe falta o ar, estrangulada pela angustia que lhe sufoca e quase grita, na ante sala do não ser, em seu estágio final da depressão.

O dia passou e eu não vivi (ou como escrever um diário)

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Sabe aquela sensação de que o dia passou e você não viveu? Uma das maneiras para lidar com a esta sensação é tendo um diário.  Você já pensou em ter um diário? Neste texto vou dar à você dicas de como fazer um diário, ou melhor, vou mostrar à você como faço o meu diário.

O diário é um espaço pessoal de encontro consigo mesmo. É aquele tempo de parada, que lhe ajuda a se organizar e colocar uma certa ordem em seu mundo interior, além de  trazer à luz questões ainda não pensadas.

As dicas que lhe dou têm a intenção de propiciar um início, até você achar o seu próprio jeito. Não é para ser algo fechado e pesado. É para ser livre, leve (se possível) e criativo.

Eu divido o meu diário assim:

  1.  Eventos (atividades) do dia.
  2. Sentimentos tido em cada uma das situações ou eventos
  3. Frase do dia
  4. Nome do dia
  5. Presente do dia seguinte
  6. Agenda do dia seguinte

Uso um caderno pequeno, desses de escola de 60 ou 100 páginas. Darei o exemplo de um dia hipotético de como escrevo:

Na primeira linha da página, lugar e data: “Campinas, 10 de Janeiro de 2014.” Colocar o lugar e a data ajuda sua memória e a compreensão.

1.  Eventos (escreva em sequência os principais eventos).

a. Escrita de texto para os amigos da fã page do Espaço Kairós.

b. visita a um amigo

2. Sentimentos (em cada uma das atividades, situações, encontros…)

a. alegria de estar dividindo, de estar contribuindo; satisfação; apreensão de não ser aceito, compreendido….(pode ser sentimentos contraditórios também, não tenha medo das contradições percebidas em você)

b.  acolhimento, doação….

3.  Frase do dia

Uma frase que você ouviu, ou leu ou que criou naquele momento da escrita. É uma frase significativa do dia. A frase diz respeito ao todo, ela abarca, engloba, abre

Ex: Como é bom dividir!

4.  Nome do Dia

O nome do dia fecha, sintetiza, acolhe, reúne a toda a experiência vivida no dia.

Ex: Contribuição

Algumas pessoas costumam dar o nome do dia logo ao acordar. Segundo esta forma de pensar, ao dar o nome do dia logo no inicio dele, você molda o dia, dá identidade a ele, dá um norte a ele, e dá direção aos seus pensamentos, sentimentos e conduta.

5.  Presente do dia seguinte (ou pílula de felicidade para o dia seguinte)

Coisas simples para arejar o coração, de preferência que não precise gastar dinheiro, mas isto também não é uma regra, de vez em quando até faz bem. Ex: dar uma volta na praça na hora do almoço. Sabe aquela sensação de que ninguém lhe ama?

No presente do dia você está dizendo para si mesmo que se importa consigo. É um alimento que nutre o seu interior. Lógico que é importante o amor do outro. Mas quando ele for demonstrado você perceberá, e poderá se alimentar dele também.

6.  Agenda do dia seguinte: 2 ou 3 atividades mais importantes.

O melhor horário para escrever o diário é  pouco antes de  você dormir. Então, desligue o seu computador ou smartphone. É um bom momento para você olhar o seu dia e rememorar os acontecimentos, os sentimentos, dar graças por eles, e estar pronto para dormir.

O diário faz você se sentir presente no dia. Ele ativa a sua percepção para as situações, para as pessoas, e principalmente, à si mesma. Além disso ele faz com que o seu dia não passe em vão, sem que você sinta que ele de fato foi vivido.

Sabe aquela sensação de que o dia passou e você não viveu? Escrevendo um diário, você vai poder qualificar melhor esta sensação, e possivelmente, dar um sentido a ela, e até acabar com ela.  E daí até dormir, é só um “pulinho”.

Mas, se aquela sensação de desconforto ainda persistir, você estará em melhor condição de decidir o que fazer com ela.

2015

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O natal é o nascimento do filho de Deus no mundo. Em nosso calendário o natal anda de mãos dadas com o ano novo. Primeiro vem o nascimento do menino Jesus, e depois o novo ano.

O ano de 2014 ficou velho. Veio o nascimento de Jesus, e nos deu forças para finaliza-lo. É como se estivéssemos sentados na ponte da vida, com Severino de Morte e Vida Severina, refletindo sobre a caminhada, os encontros, suas vitorias e também as derrotas, os dissabores… E de repente, vem a notícia do nascimento do menino. E essa notícia lhe dá forças para dali se levantar e celebrar.

Penso que o nascimento de Jesus vem no fim do ano, para indicar o fim de um ciclo, e o nascimento do novo. 2015 inaugura uma nova era em nossa vida. Uma nova oportunidade para viver.  Alguns estão em férias, outros estão voltando ao trabalho, à escola, mas todos têm a oportunidade de renovar o sentido da própria vida, reafirmar valores, curar feridas abertas, dar significado a própria existência, e reafirmar as alianças de amor.

Tempo (kairós) de oportunidade. Isso é o que foi doado a todos nós de novo. Aliás, isso é perdão. Perdoar é doar a si e ao outro uma nova chance, um nova oportunidade de ser diferente, de pensar, fazer e construir diferente, e de viver melhor.

Como Escolher Um Psicólogo

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“Não deem o que é sagrado aos cães, nem atirem suas pérolas aos porcos, caso contrário, estes as pisarão e aqueles, voltando-se contra vocês, os despedaçarão.” Evangelho de Mateus

Há momentos que desejamos e precisamos que alguém nos ouça de verdade. A medida que o tempo passa, este desejo pode se tornar uma necessidade. E aí surge a pergunta: Com quem posso falar? Quem pode me escutar?

Há riscos quando dividimos com outros os segredos do nosso coração, eles são sagrados para nós. São tão preciosos, que escolho a dedo a quem falar. Pois é ingênuo achar que qualquer pessoa está pronta ouvir o que tenho para dizer. Não está.

Ouvir o outro pode ser uma tarefa penosa para algumas pessoas, por despreparo pessoal e técnico. Há assuntos que a pessoa não aguenta ouvir sem ser afetada. Quando isto acontece ela passa a ouvir o outro de dois modos possíveis.   São modos de ser e de interagir que causam sofrimentos a quem arrisca falar de sua vida a elas.

O primeiro modo é o ouvir agressivo, violento, metaforizado pela imagem dos cães, em que o outro é destruído, ou devorado, simplesmente porque contou os seus segredos. O ataque à sua intimidade é inesperado.  Como resultado você sai da conversa estraçalhado, machucado.

O segundo modo é o ouvir desatento, com desprezo, metaforizado pela imagem do porco. É o modo de ser que desvaloriza o que ouve. Na verdade, ignora porque não entende o valor e o significado do que está sendo dito. Então, joga na lama e pisa, ou seja, despreza e não dá atenção. Quem fala sai vazio e humilhado com uma conversa assim.

Estes riscos não tiram de nós a necessidade humana de alguém que nos escute. A questão é que estas formas inadequadas de ser podem agir dentro de nós contra nós mesmos. Como? Destruindo ou desprezando nossas mais belas e construtivas iniciativas, incluindo o desejo sincero de estar diante de alguém que nos ouça de verdade.

Psicólogo

Carlos Augusto R. de Souza

Fone: (19) 3241-3281